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Saúde
Noticia de: 27 de Abril de 2018 - 09:58
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Feminicídio mata oito mulheres por dia no Brasil

Assassinato de mulheres choca famílias. Quem sobrevive, muitas vezes, tem medo de denunciar.

Edição do dia 04/10/2017

04/10/2017 23h59 - Atualizado em 05/10/2017 01h00

Feminicídio mata oito mulheres por dia no Brasil; confira relatos

Assassinato de mulheres choca famílias.
Quem sobrevive, muitas vezes, tem medo de denunciar.

Feminicídio é o crime de ódio que mata oito mulheres por dia no Brasil. O Profissão Repórter mostra histórias de assassinatos, violência e relatos de quem sobreviveu e vive com medo.

A Lei do Feminicídio foi criada em 2015 com base nos estudos da advogada criminalista Luiza Eluf: “A conduta  é matar alguém, porém, se este alguém for mulher e, se essa mulher morrer devido às condições do sexo feminino no Brasil, ou seja, devido a subalternidade ou ao entendimento por parte do assassino, de que aquela mulher tem menos direito que ele e que aquela mulher lhe deve obediência total e ele tem o direito de vida ou morte sobre ela. Então, ele mata por esse motivo, ele estará cometendo um feminicídio”.

Segundo a advogada, a punição do feminicídio é maior do que a do homicídio porque o motivo do assassinato é torpe e a vítima é pega de surpresa, de emboscada, à traição: “ Tudo isso a nossa lei considera que torna o assassinato mais grave do que um homicídio que tenha sido praticado de outra forma e por um por outro motivo”.

Final infeliz
Telma Adriana Galhardo foi assassinada pelo marido, Walter Willians Moreno, no dia 10 de setembro desse ano. Eles estavam casados há cinco anos, eram veterinários e moravam em Suzano, na Região Metropolitana de São Paulo. Depois de matar a mulher com três tiros, ele cometeu suicídio.

“Ela já tinha sido agredida várias vezes, eu vi. Ela podia ter ido embora, mas acho que ela gostava dele. Nós, como família, falamos pra ela: ‘vem embora, larga tudo e vem embora’. Olha aí o que deu”, conta o padrinho de Telma, Vagner Vargas.

Em outra briga do casal, Telma chegou a pedir ajuda à polícia. Quem atendeu à ocorrência foi o capitão da PM, Fábio Schultze: “Ela havia sido agredida por ele e apresentava um corte na cabeça. A equipe chegou no local e afirmou que ela possuía alguns hematomas, um corte e que tinha sido vítima de socos na região da cabeça”.

Telma acabou não registrando a queixa contra o marido. Agora, seu assassinato está sendo investigado pela Polícia Civil de Suzano. “Esse é um caso de feminicídio porque é um crime contra mulher por razões da condição do sexo feminino”, afirma o delegado Eduardo Peretti.

O delegado conta que Walter usou uma pistola e uma espingarda para assassinar Telma e revela que o veterinário já tinha sido denunciado por fazer ameaças a um morador da cidade, usando uma arma.

Estupros constantes
Depois de sofrer um estupro coletivo em janeiro desse ano, uma jovem vem sendo violentada quase todas as semanas por um dos agressores. Ela está sendo ameaçada de morte e tem muito medo de denunciar. Foi ela quem procurou a equipe do Profissão Repórter para contar sua história.

PREP feminicídio (Foto: TV Globo)

Os agressores eram quatro homens, um dele vizinho da jovem. “Eu tava voltando da casa de uma amiga e do nada apareceram esses caras que me levaram para um matagal. Botaram uma arma em mim e falaram que se eu gritasse, eles iam me matar. Me bateram, usaram objetos em mim. Foi difícil, muita vergonha, medo, não podia contar pra ninguém, tinha medo da minha família descobrir. Eu fiquei machucada, não tinha nem condições de sair de casa”, relata.

Alguns meses depois, o pesadelo recomeçou e o vizinho passou a violentá-la semanalmente. O estuprador é um traficante conhecido na região e já esteve preso duas vezes. Além dos ataques, ele faz ameaças de morte. “Eu não aguento mais apanhar, aí eu parei de reagir. E acredito que ele pode me matar e eu não vou pagar pra ver, não vou arriscar. Já cheguei a sair de casa pra fazer a denúncia e não fiz. Me sinto muito desprotegida, não tenho proteção de lado nenhum. Ele vai voltar, me matar, matar minha família toda. Eu não posso deixar isso acontecer”, afirma.

Ciúmes, agressão e assassinato
No dia 21 de agosto, Siria Silva foi morta pelo namorado, Jailson Ferreira de Souza, em uma ocupação no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Os dois viviam juntos há um ano e meio. Os vizinhos relatam que as brigas eram constantes.

Siria morreu por estrangulamento. O crime só foi descoberto três dias depois. “Ele achava que ela tinha traído ele e ela tinha ido dormir na casa da mãe dela. Aí ele começou a espancar ela de novo, depois parou, ficou silêncio. Na segunda-feira nós achamos o corpo aqui dentro do barraco. É um ato covarde”, relata um vizinho.

PREP feminicídio (Foto: TV Globo)

Jailson foi entregue à polícia pelo próprio pai, José de Souza, e está preso em um centro de detenção provisória. O delegado que cuida do caso não quis gravar entrevista. Ele também se recusou a explicar porque o crime foi registrado como homicídio e não como feminicídio. 

O Profissão Repórter foi até a cadeia em que está Jailson e ele falou sobre o assassinato: “Eu aceitei falar com vocês porque senão eu estaria sendo mais covarde ainda. O que aconteceu é que eu matei a minha esposa. A gente brigava, mas a gente sempre se reconciliava. O motivo de ter sido agressivo foi o medo de perder ela. De tanto medo de perder a minha esposa, eu acabei matando ela”.

Julgamento
Em Caucaia, no Ceará, acontece o julgamento de um homicídio de uma jovem. Sâmyla Samara dos Santos Souza, de 19 anos, foi morta a tiros pelo ex-companheiro e pai do seu filho, Pedro Henrique Barbosa Soares. O assassinato aconteceu em abril de 2015, um mês depois de começar a valer a lei do feminicídio. O juiz do caso autorizou a entrada do Profissão Repórter no tribunal, com a condição de não mostrar o rosto das testemunhas, do réu e nem dos jurados. Veja no vídeo acima alguns trechos do julgamento.

Segundo a mãe da jovem, antes de ser assassinada, Sâmyla sofreu várias agressões enquanto estava casada com Pedro Henrique, sempre motivado por ciúmes. Ela vivia uma rotina de terror, com o marido a ameaçando com uma arma e a espancando com um chicote feito de fio elétrico.

Imagens de uma câmera de segurança mostram o dia em que Sâmyla foi morta: já separada de Pedro Henrique, ela entra na mercearia do tio para comprar comida para o filho, que estava no carro. Pedro Henrique sai de trás de um muro e entra correndo no comércio. Lá dentro, atira seis vezes em Sâmyla. Quando sai, ainda dá dois tiros para o alto.

Durante o depoimento, Pedro Henrique conta sua versão. Ele assume que assassinou Sâmyla: “Pelo motivo de eu ter sido traído, pelo motivo do que vinha acontecendo, a minha vida ter acabado ali. Não era indício de traição não, mas a pessoa olhar a mudança no dia a dia. Até aprender a cozinhar eu aprendi, porque comida que prestava não saia da mão dela. Agredir, agredir eu nunca fui de agredir ela não. Nunca bati nela”.

Pedro Henrique foi condenado a 26 anos e seis meses de prisão pelo crime de feminicídio triplamente qualificado. O filho do casal será criado pela avó materna. Ele tem cinco anos e ainda não sabe de tudo o que aconteceu.

Sobrevivente
Aleudiane de Sousa sobreviveu a uma tentativa de feminicídio no dia 21 de setembro, em Aparecida de Goiânia, em Goiás. Ela levou cinco tiros do marido em plena luz do dia. Três balas ainda estão alojadas embaixo dos seios. “Ele fez isso porque a gente já não convivia bem dentro de casa e eu queria que a gente se separasse. Já tinha sido agredida por ele várias vezes. A gente acredita que vai mudar, que vai melhorar e não melhora”, relata.

PREP feminicídio (Foto: TV Globo)

Depois de atirar em Aleudiane, o ex-marido fugiu em uma moto, mas foi preso cinco dias depois. A vítima tem medo do agressor voltar: “Ele volta, ele vai ficar solto e se ele ficar solto ele vai me matar. Ele quer conseguir terminar de fazer o serviço”.

“É mais um crime que envolve violência de gênero, violência doméstica, de um homem descontente com o término da relação e de um homem que acredita que aquela mulher que não é mais dele não pode ser de mais ninguém”, afirma a delegada Ana Elisa Gomes, que acompanha o caso.


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