15 de Abril de 2021 | 02:25
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Saúde
Noticia de: 05 de Abril de 2021 - 15:50
Fonte A - A+

Após 9 mortes por cloroquina, Bolsonaro volta a defender

De acordo com o Painel de Notificações de Farmacovigilância, as notificações por efeitos adversos associados ao uso da cloroquina saíram de 139 em 2019 para 916 em 2020

O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender hoje a “liberdade total” dos médicos para receitar remédios contra a Covid.

“O vírus é grave, mas seus efeitos têm como ser combatidos”, disse Bolsonaro nesta segunda-feira (5), sem citar o nome dos remédios supostamente capazes de fazer isso.

Em cerimônia de entrega de 435 moradias a famílias de baixa renda em São Sebastião (DF), Bolsonaro elogiou o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), pelo trabalho em supostamente combater a pandemia.

“Naquele município, com toda certeza em mais, também, e alguns estados também, o médico tem a liberdade total para trabalhar com o paciente. Total. E esse é o dever do médico. É uma obrigação e um direito dele. Não tem o remédio específico, ele trata da melhor maneira possível”.

Reportagem de O Globo publicada hoje mostrou que um painel da Anvisa já registra nove mortes por cloroquina ou hidroxicloroquina desde o começo da pandemia.

Casos de efeitos adversos após o uso de medicamentos do "kit Covid", grupo de medicamentos fornecidos pelo governo federal a estados e municípios no qual estão remédios sem eficácia contra a Covid-19, têm aumentado no último ano.  No caso da cloroquina, medicamento defendido pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), o aumento nas notificações foi de 558%.

O levantamento feito pelo O Globo com base no Painel de Notificações de Farmacovigilância, mantido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os dados revelaram que ao menos nove mortes foram notificadas, todas após março de 2020, depois do início da pandemia no Brasil. De acordo com o painel, as notificações por efeitos adversos associados ao uso da cloroquina saíram de 139 em 2019 para 916 em 2020. 

Em janeiro de 2021, a Secretaria de Comunicação (Secom) do governo do presidente Jair Bolsonaro contratou quatro influenciadores, que receberam um montante de R$23 mil para falar sobre “atendimento precoce”. De acordo com levantamento da Agência Pública material, a verba saiu de um investimento total de R$19,9 milhões da campanha publicitária denominada ‘Cuidados Precoce COVID-19’.
No dia 23 de março, o Hospital das Clínicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) confirmou primeiro caso de hepatite medicamentosa relacionada ao uso do 'kit Covid'. O paciente identificado é morador de Indaiatuba, município de São Paulo. Ele tem aproximadamente 50 anos e não possui histórico de outras doenças.
No levantamento, O Globo considerou os seguintes remédios: cloroquina, hidroxicloroquina e sulfato de hidroxicloroquina, azitromicina e ivermectina. Notificações de efeitos adversos podem ser feitas tanto por, empresas, profissionais e serviço de saúde e também pelos próprios pacientes. De acordo com a Anvisa, as notificações representam “suspeitas” e nem todas são investigadas, podendo os efeitos registrados ter relação com outras substâncias.

O estudo revelou uma mudança no ranking das substâncias mais notificadas. Em 2019, a cloroquina ocupava a sétima posição na lista dos medicamentos responsáveis por notificações de efeitos adversos. Em 2020, ela passou para o primeiro lugar. No mesmo período, a plataforma mostra que houve um aumento geral no número de notificações de efeitos adversos.

A quantidade de notificações referentes a todos os medicamentos saiu de 8.587 em 2019 para 19.592 no ano seguinte, um crescimento de 128%. Apesar do crescimento dos dados gerais, o aumento relacionado a medicamentos como cloroquina e azitromicina é superior à média.

Apesar de estudos científicos comprovarem que ela não tem eficácia contra a doença, a cloroquina é constantemente defendida por Bolsonaro para o chamado "tratamento precoce" da Covid-19. Junto com a hidroxicloroquina, o medicamento chegou a ter orientação pelo Ministério da Saúde para o uso desde os sintomas iniciais da Covid-19. A recomendação foi amplamente criticada por especialistas da área da saúde. 
Do total de eventos adversos notificados, 96% se concentram no Amazonas, região que enfrentou uma das principais crises em decorrência do vírus. Entre os principais efeitos adversos notificados estão: distúrbios dos sistemas nervoso, gastrointestinal, psiquiátrico e cardíaco.

Na pior fase da pandemia na região, com o colapso do sistema de saúde local, reportagens relevaram que o Ministério da Saúde promoveu uma tout por unidades básicas de saúde de Manaus pregando o "tratamento precoce". O Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar o caso. Na ocasião, médicos também foram favoráveis ao uso dos medicamentos. 

Segundo O Globo, o MS foi questionado se a pretende rever a orientação editada em maio sobre o uso de medicamentos contra a Covid-19, mas a pasta não respondeu. A pasta afirmou que está atenta e "acompanhando todas as atualizações e publicações referentes ao tratamento da covid-19 pelo mundo."

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