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Mundo
Noticia de: 19 de Março de 2020 - 14:53
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Coronavírus: Médicos podem ter de fazer 'escolha de Sofia' por quem vai viver na Itália

Com o crescimento exponencial de casos na Itália, o segundo país mais afetado no mundo, associação médica aponta que, diante da sobrecarga dos leitos de UTI, profissionais de saúde podem ter de tratar aqueles com 'maior chance de sobreviver'.

Em questão de dias, a Itália tornou-se o segundo país mais afetado pela pandemia do novo coronavírus — e a situação continua a se agravar. O total de casos confirmados ultrapassou 15 mil, e já foram registradas mais de mil mortes.

O crescimento exponencial de casos levou um grande número de pessoas a buscar atendimento nos hospitais, que já dão sinais de estarem sobrecarregados na região da Lombardia, a mais afetada, e também a mais rica, do país, onde vivem um sexto dos seus 60 milhões de habitantes.

Em meio a esta situação, o Colégio Italiano de Anestesia, Analgesia, Ressuscitação e Cuidado Intensivo (SIAARTI, na sigla em italiano) divulgou um documento em que prevê que a falta de recursos suficientes para tratar todos os pacientes graves pode fazer com que médicos e enfermeiros tenham de escolher quem será admitido nas unidades de tratamento intensivo (UTI) de acordo com suas chances de sobreviver.

O SIAARTI afirma no documento que previsões feitas com base no que ocorre atualmente em algumas regiões italianas apontam para um aumento dos casos de insuficiência respiratória aguda nas próximas semanas.

De acordo com a entidade, 10% dos pacientes diagnosticados com Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus, precisam de equipamentos de respiração assistida. Apesar desta condição poder ser curada, sua fase aguda pode durar "muitos dias".

Isso levará a um "grande desequilíbrio" entre os recursos disponíveis para tratar os pacientes que precisam ser internados nas UTIs e a demanda por esse tipo de serviço.

Por isso, a entidade publicou recomendações que os médicos e enfermeiros devem seguir em um cenário de "medicina de catástrofe".

'Escolhas difíceis'

Isso significa fazer "escolhas difíceis" de acordo com a chance de sucesso de tratamento, considerando a idade do paciente, se esta pessoa tem outras doenças, a gravidade do seu estado e a possibilidade de reverter esse quadro.

"A disponibilidade de recursos não é levada em consideração normalmente nesse processo de decisão e nas escolhas feitas para cada paciente, até que os recursos se tornam tão escassos que isso não permite o tratamento de todos os pacientes que poderiam ser beneficiados", afirma a SIAARTI.

A entidade diz que pode ser necessário estabelecer um limite de idade para os pacientes atendidos nas UTIs, reservando os recursos disponíveis para aqueles que têm não apenas maior chance de sobreviver, mas também viverão por mais tempo após serem salvos.

A SIAARTI destaca ainda que aplicar o critério mais comum de atendimento nas UTIs, de internar quem chega primeiro, também seria fazer uma escolha — de não tratar os pacientes que chegariam depois, diante da falta de leitos para atendê-los.

Quando houver um grande fluxo de pacientes e uma pessoa internada não responder a um tratamento, disse a entidade, a decisão de colocá-la sob cuidados paliativos "não deve ser adiada".

Decisão drástica, mas 'absolutamente racional'

Estas podem parecer decisões drásticas, mas, em uma situação como esta, há uma completa saturação dos recursos de UTI, que se cria um "gargalo" no atendimento à população, explica Jaques Sztajnbok, médico supervisor da unidade de tratamento intensivo do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

"Não há como ampliar a estrutura desse tipo de serviço para atender 20 mil pessoas de uma só vez. Então, você precisa analisar quem tem mais chance de sobreviver. Isso assusta e pode parecer cruel, mas é absolutamente racional", afirma Sztajnbok.

"Se você escolher tratar o paciente 'errado', vai usar muito tempo e recursos com alguém que não chegará a ser salvo e deixará de atender duas ou três outras pessoas, que vão morrer (pela falta de atendimento). Em uma situação assim, é melhor salvar um do que nenhum."

Até agora, o novo coronavírus já chegou a 114 países e a todos os continentes, exceto a Antártida, e infectou mais de 118,3 mil pessoas, levando cerca de 4,2 mil delas à morte.

Do total de casos, a maioria deles foi registrado na China, onde há 80,9 mil pacientes confirmados.

"Não foi à toa que a China construiu hospitais da noite para o dia, que eram basicamente de leitos de UTI. Houve quem achasse aquilo exagero, mas eles aparentemente viram que estavam sendo bombardeados por pacientes em estado crítico e correram atrás para dar conta disso", diz Sztajnbok.


Com informações Bem estar

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